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Uso de canetas emagrecedoras amplia pressão por magreza e medicaliza corpos

Professora da USP detalha como a busca por corpos magros gera violência e desvia mulheres de lutas sociais importantes.

03/05/2026 às 14:38
Por: Redação

O aumento no uso de medicamentos injetáveis para tratar a obesidade, popularmente chamados de canetas emagrecedoras, tem gerado discussões significativas. Embora esses fármacos demonstrem resultados notáveis e sejam aprovados por várias entidades médicas, é crescente a utilização sem supervisão de profissionais de saúde, inclusive por indivíduos que não possuem diagnóstico de obesidade.

 

Segundo Fernanda Scagluiza, professora das Faculdades de Saúde Pública e de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), a atração por esses dispositivos farmacológicos reside no que ela denomina "economia moral da magreza".

 

A especialista foi uma das participantes do episódio "O boom das canetas emagrecedoras", transmitido pelo programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil, na segunda-feira passada, dia 27.

 

Impacto da Beleza na Sociedade

 

No contexto da entrevista, foi questionado à professora Scagluiza sobre a conceituação da "economia moral da magreza" e como tal fenômeno se manifesta em atos de violência dirigidos a indivíduos com corpos gordos.

 

A professora explicou que a economia moral se refere à distinção de significados atribuídos a diferentes tipos físicos. Um corpo que é considerado magro ou "sarado" é frequentemente associado a virtudes, refletindo a ideia de alguém que se dedicou, possui autocontrole e alcançou essa forma física por meio de determinadas ferramentas.

 

Enquanto que, socialmente, um corpo gordo é visto como o de alguém preguiçoso, relaxado, que não tem força de vontade, não tem disciplina e outros estereótipos também muito perigosos, como falta de competência, falta de higiene, que não têm nada a ver com a realidade das pessoas.

 

Scagluiza metaforizou a situação como se as pessoas, ao interagirem socialmente, possuíssem um número desigual de "fichas". Indivíduos com corpos considerados "sarados" ou magros acumulariam muitas dessas fichas, desfrutando de melhores interações sociais no ambiente de trabalho, na educação e nos relacionamentos afetivos, experimentando privilégios. Em contraste, para as pessoas gordas, a realidade seria inversa, resultando em perda de direitos e situações de opressão.

 

O programa também inquiriu sobre a origem desses padrões de beleza vigentes.

 

Fernanda Scagluiza explicou que os padrões estéticos possuem uma longa história e são adaptados conforme as épocas. Ela ressaltou que a existência de qualquer padrão sempre impede a plena diversidade humana, exemplificando que, em um grupo de pessoas, a variedade de biotipos é evidente. A imposição de um padrão, seja de magreza extrema, de uma "magreza saudável" ou de um corpo altamente musculoso, invariavelmente exclui uma grande parcela da população. Para a professora, o propósito dessa exclusão é sustentar uma indústria que oferece soluções para atingir esses ideais inalcançáveis.

 

Em outro momento, foi questionado se, na atualidade, a busca pela magreza se tornou um objetivo inatingível, onde nunca se alcança o patamar considerado "magro o suficiente".

 

A pesquisadora afirmou que sim, concordando com a premissa de que a magreza ideal é um alvo em constante deslocamento. Ela parafraseou essa realidade com a expressão de que "toda gordura será castigada". Scagluiza detalhou que indivíduos com maior peso ou um corpo de dimensões mais amplas estão imersos em um sistema de violência conhecido como gordofobia.

 

Esse sistema vai fazer de tudo para que essa pessoa fique de fora da sociedade, para que se enraize dentro dela a humilhação, a opressão e a falta de dignidade.

 

A professora enfatizou que as pessoas com corpos maiores são inegavelmente as mais afetadas por essa dinâmica. Contudo, ela advertiu que até mesmo aqueles que não são considerados gordos experimentam a pressão estética pela magreza, cuja intensidade varia conforme o local, o gênero e a classe social. De modo geral, as mulheres são as mais impactadas, embora a pesquisa atual ainda não possua o detalhamento necessário para discernir as experiências entre mulheres cis, trans e travestis. Atualmente, a percepção dominante é que qualquer acúmulo de gordura é visto como um problema, justificando a busca por uma "magreza farmacológica" vendida no mercado.

 

O entrevistador perguntou se havia um movimento de afastamento da cultura da magreza extrema que teria sido revertido com a ascensão das canetas emagrecedoras.

 

Scagluiza confirmou essa percepção, mas fez uma ressalva sobre a ingenuidade. Ela observou que a partir de 2010, houve um início de mudança, impulsionado pelo movimento de positividade corporal, que promovia a importância da diversidade. No entanto, ela argumentou que esses avanços, especialmente na indústria da moda, foram obtidos de forma relutante. Os espaços concedidos a mulheres com corpos ligeiramente maiores ainda exigiam um formato de ampulheta, sem qualquer tipo de dobra abdominal. Atualmente, a professora percebe que essa indústria parece contente em abandonar tais concessões e retornar ao ideal de magreza extrema. Ela citou uma reportagem recente indicando que modelos de passarela, já muito magras e vestindo o que é conhecido como "tamanho zero", precisam ter suas roupas ajustadas para desfiles porque até esses tamanhos se mostram folgados. Este cenário é considerado muito alarmante, particularmente para crianças e adolescentes, que são altamente suscetíveis a influências. Apesar disso, ela concluiu que a situação anterior também não representava um cenário ideal.

 

Impacto na Luta Feminina

 

A professora Scagluiza expressou sua preocupação, descrevendo a atualidade como um período assustador para as mulheres, mesmo para ela, que se considera privilegiada. Ela mencionou que o Brasil lidera os índices de feminicídio e que as mulheres são constantemente afetadas pelo machismo e pelo cis-hétero patriarcado. Além disso, há um crescimento de movimentos conservadores na política e na sociedade, como os de "redpill" e "tradwife" (esposas tradicionais). Ela questionou o foco das mulheres em questões como o tamanho da barriga ou a não adequação de roupas, lembrando que "fazer dieta é o maior sedativo político para as mulheres". Para Scagluiza, a intensa busca pela magreza extrema, impulsionada pelas canetas, serve aos interesses desses movimentos agressivos, violentos e retrógrados, desviando a atenção feminina das lutas essenciais.

 

Medicalização do Corpo e Saúde Mental

 

Ao explicar o conceito de medicalização, Fernanda Scagluiza definiu-o como a transformação de um aspecto social em uma questão médica. Ela citou a alimentação como exemplo, que historicamente é um fenômeno sociocultural, com rituais desenvolvidos em torno da comida muito antes da ciência da nutrição. Contudo, ela observou que atualmente a comida é vista como remédio, com pessoas dizendo, por exemplo, "vou comer proteína", ignorando que proteína é um nutriente presente em alimentos, não um alimento em si. A professora destacou que essa perspectiva, que desconsidera a comida como um todo, é intensificada pela popularização das canetas emagrecedoras.

 

Em um estudo que a gente está submetendo para uma revista, a gente encontrou o seguinte: as mulheres que já tinham usado as canetas, elas usavam o termo "vacina contra fome".

 

A fala da professora indica que o uso das canetas levou a fome a ser percebida como algo opcional, contrariando sua natureza fundamental no processo evolutivo humano. Como resultado, alguns comportamentos observados são a decisão de não comer, mas com a preocupação de atingir metas de proteína, hidratação e consumo de fibras para o funcionamento intestinal, o que Scagluiza classificou como um comportamento inteiramente medicalizado.

 

Ela também identificou um padrão de restrição alimentar extrema, onde alguns usuários aproveitavam os efeitos colaterais como náuseas ou vômitos para evitar comer. Scagluiza recordou uma declaração específica: "Foi esse o jeito que eu achei de fechar a boca num nível radical para conseguir emagrecer".

 

A especialista alertou para os graves perigos desses comportamentos tanto para a saúde individual quanto para a vida em sociedade, questionando o destino dos rituais e do aspecto simbólico da alimentação. Ela reforçou que a alimentação saudável constitui um direito humano fundamental, intrinsecamente ligada à forma como pensamos, vivemos, à vitalidade corporal e à prevenção de diversas enfermidades, e que muitos desses elementos podem ser perdidos nesse processo de medicalização.

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