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Cinema latino-americano debate democracia em meio a tensões políticas

Três filmes com pautas sobre regimes autoritários e memória disputam o Prêmio Platino no México, refletindo a fragilidade democrática da região.

03/05/2026 às 14:37
Por: Redação

A produção cinematográfica na América Latina continua a ser um palco fundamental para discussões sobre a democracia, a memória política e o legado de regimes autoritários. Especialistas em cinema e em ditaduras, consultados pela Agência Brasil, indicam que a recorrência desses temas nas telas reflete as persistentes tensões existentes na região.

 

Pelo menos três produções que abordam diretamente a democracia e os regimes autoritários estão entre os concorrentes ao Prêmio Platino, a mais importante premiação do cinema ibero-americano. Os vencedores serão anunciados no dia 9 de maio, em uma cerimônia que acontecerá no México.

 

Entre os longas-metragens que disputam o prêmio e focam em regimes autoritários e na consolidação democrática, destacam-se duas produções brasileiras e uma paraguaia. O filme brasileiro O Agente Secreto, dirigido pelo pernambucano Kleber Mendonça, concorre ao troféu de melhor filme do ano, enquanto o documentário Apocalipse nos Trópicos, da cineasta Petra Costa, também está na disputa. Adicionalmente, o documentário paraguaio Sob as bandeiras, o Sol, de Juanjo Pereira, traz à tona a memória da ditadura militar em seu país.

 

Abordagens sobre a democracia e direitos sociais

 

Cada uma das obras em competição no Platino explora facetas distintas dos desafios democráticos e do autoritarismo. O Agente Secreto investiga o suporte de setores empresariais aos regimes, a perseguição política e o esforço para apagar a memória da ditadura no Brasil. Já o documentário de Petra Costa, Apocalipse nos Trópicos, se aprofunda na influência das igrejas evangélicas nos rumos da política. Por sua vez, Sob as bandeiras, o Sol, dirigido por Juanjo Pereira, utiliza imagens raras para reconstruir o retrato da ditadura paraguaia.

 

O professor de História da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), Paulo Renato da Silva, analisou a situação, afirmando que “Nossos países possuem populações privadas de direitos, como saúde, alimentação e moradia, e essas carências provocam insatisfações”. Ele enfatizou que a democracia, em contraste com os regimes autoritários, é o ambiente propício para que essas demandas por direitos sejam atendidas.

 

“É a democracia que permite você olhar para essas demandas [por direitos] e, como sociedade, buscar atendê-las”, afirmou.


Conforme sua explicação, os regimes autoritários tendem a beneficiar grupos políticos e econômicos específicos, restringindo a liberdade de expressão e outras manifestações de oposição. Paulo Renato é um renomado pesquisador da ditadura paraguaia, um regime que recebeu apoio do Brasil em articulações como a Operação Condor, tema que é abordado no documentário paraguaio.

 

A pauta democrática como questão em aberto

 

Marina Tedesco, professora de cinema na Universidade Federal Fluminense e especialista em cinematografia latino-americana, complementa que a fragilidade democrática na América Latina ainda representa “uma pauta não resolvida”. Ela observa a persistência de figuras como presidentes e importantes atores políticos que “defendem o regime militar ou afirmam que não foram graves”, referindo-se tanto às violações de direitos humanos quanto aos casos de corrupção.

 

A professora citou o exemplo do ex-presidente Jair Bolsonaro, que reverenciou Alfredo Stroessner, o ex-líder do regime paraguaio retratado no filme de Juanjo Pereira. Stroessner comandou uma ditadura corrupta e brutal, responsável pela prisão e tortura de mais de 20 mil pessoas.

 

Tedesco ressaltou que a democracia sempre foi um tema central no cinema, primeiro de forma clandestina e, posteriormente, através de produções de exilados políticos. Ela conclui que a relevância do debate ainda provoca reações, destacando que “Pelo fato de a discussão incomodar, ainda vemos governos autoritários na América Latina atacando tanto o cinema ─ uma instância onde esses temas ainda são tratados”.

 

Em 2025, o filme Ainda Estou Aqui, que narra a ditadura brasileira sob a perspectiva da família do ex-deputado Rubens Paiva, foi o principal premiado no Prêmio Platino, evidenciando a continuidade do reconhecimento a produções com essa temática.

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