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Milton Santos: 100 anos do geógrafo que desvendou desigualdades

Legado do intelectual negro continua a inspirar estudos sobre a organização do espaço e as dinâmicas urbanas

03/05/2026 às 13:33
Por: Redação

O contraste entre grandes redes de supermercados e pequenos mercadinhos em São Luís, no Maranhão, ilustra as profundas dinâmicas de exclusão e desigualdade presentes no cotidiano urbano. Essa paisagem de consumo, que revela a adaptação de comunidades com poucos recursos, serve como um exemplo prático das teorias de Milton Santos.

 

A análise desse panorama urbano foi desenvolvida por Livia Cangiano, pesquisadora de pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP) e professora colaboradora na Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). Para sua pesquisa, Livia empregou uma teoria concebida por Milton Santos nos anos 1970.

 

A relevância de seu pensamento é reforçada neste 3 de maio, data em que se celebra o centenário de nascimento do geógrafo. Embora Milton Santos tenha falecido em 2001, aos 75 anos, suas contribuições intelectuais permanecem como fundamentais referências para a compreensão de análises socioeconômicas, tanto no Brasil quanto em escala global.

 

Uma das principais formulações teóricas de Milton Santos descreve a economia urbana dividida em dois circuitos distintos. O circuito superior caracteriza-se pela presença de grandes empresas, detentoras de elevado nível tecnológico, capital substancial e organização complexa. Em contrapartida, o circuito inferior abrange pequenos comércios e serviços, que, apesar de possuírem menor acesso a recursos, demonstram grande capacidade de adaptação às demandas e necessidades das comunidades.

 

 

“É muito difícil para as pessoas da periferia deixarem o espaço onde vivem e se deslocarem até o centro para consumir. As populações que vivem na periferia abrem seus próprios comércios, quitandas, mercadinhos, pequenas lojas”

afirma Livia Cangiano, contextualizando a dinâmica observada.

 

Ela também exemplifica a flexibilidade do circuito inferior ao mencionar o setor alimentício, onde um consumidor que não possui condições para adquirir uma dúzia de ovos pode comprar apenas uma unidade. Esse tipo de venda avulsa demonstra uma adaptabilidade comercial distinta das grandes redes supermercadistas, que geralmente impõem a compra de quantidades predefinidas.

 

A relevância das concepções de Milton Santos é evidenciada também em estudos internacionais. O projeto de pesquisa do qual a professora Livia Cangiano participa, por exemplo, investiga a aplicação das ideias do geógrafo para analisar as dinâmicas urbanas em diversas localidades, incluindo Gana, no continente africano, e nas cidades europeias de Londres e Paris.

 

Percurso Intelectual e Legado

 

Nascido em 3 de maio de 1926, na cidade baiana de Brotas de Macaúbas, Milton Santos consolidou-se como uma das figuras mais proeminentes da geografia global. Sua formação acadêmica incluiu o bacharelado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e a obtenção do título de doutor pela Universidade de Strasbourg, na França.

 

O geógrafo viveu um período de exílio durante a ditadura militar brasileira, lecionando em instituições de ensino superior localizadas na Europa, África e América Latina. Ao retornar ao Brasil, ele intensificou sua produção intelectual e atuou como professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e na Universidade de São Paulo (USP).

 

Como intelectual negro, Milton Santos confrontou o racismo estrutural no ambiente acadêmico e desenvolveu uma vasta obra que transformou a maneira de conceber o espaço geográfico, conectando dimensões econômicas, políticas e sociais. Sua trajetória e pensamento serviram de inspiração e referência para diversos outros intelectuais negros, entre eles a geógrafa Catia Antonia da Silva, que atua como professora na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

 

 

“Eu sou uma mulher negra de 60 anos. Entrei na UFRJ na década de 80, onde a maior parte dos meus colegas na universidade não eram negros. Então, o Milton foi muito importante para a minha formação, não só do ponto de vista cognitivo e técnico, mas também na dimensão humana”

relata Catia Antonia da Silva, destacando a influência do geógrafo.

 

A professora Catia esclarece que, embora a obra de Milton Santos não tenha tido a negritude ou a dimensão política da relação entre classe social e raça como seus temas centrais, seu trabalho constituiu uma teoria social crítica das desigualdades, eficaz na análise de questões raciais. Além disso, ele jamais se omitiu de se posicionar publicamente sobre o tema quando necessário.

 

 

“Ele dizia que o fato de ser um professor universitário não o impediu de viver experiências de racismo. Falava que os negros precisavam ter um esforço muito maior para o seu trabalho ter legitimidade. Mas ele nunca utilizou qualquer vitimização para se tornar um intelectual”

acrescenta a geógrafa sobre a postura de Milton Santos.

 

Análise das Desigualdades e o Espaço Geográfico

 

Para além da teoria dos circuitos urbanos, Milton Santos desenvolveu outros conceitos que enriqueceram a compreensão das desigualdades. Segundo o geógrafo, o espaço não deve ser visto meramente como um palco para a existência humana, mas sim como uma consequência direta de escolhas políticas e econômicas.

 

Dessa perspectiva, a distribuição não equitativa de infraestrutura nas áreas urbanas – abrangendo serviços como saneamento básico, transporte público e acesso à internet – não representa um fenômeno aleatório. Pelo contrário, ela é o reflexo de decisões que beneficiam seletivamente certos grupos sociais e regiões específicas.

 

Ao observar uma área periférica desprovida de serviços essenciais, ou uma região valorizada que concentra altos investimentos, Milton Santos convida a uma reflexão mais profunda. Ele sugere que esses cenários não são frutos do acaso, mas sim a concretização visível de relações de poder.

 

 

“Milton traz essa compreensão de uma geografia historicamente produzida pelos grandes aparatos do Estado. À medida que o capitalismo avança, processos de industrialização e urbanização no Brasil vão produzir desigualdades e destruição das economias locais. Seja do Nordeste, da Amazônia ou do interior dos estados. Determinados grupos sociais serão beneficiados pelo processo de modernização”

esclarece a geógrafa Catia Antonia da Silva.

 

Em sua obra Por uma outra globalização, Milton Santos expõe como o sistema global é frequentemente promovido como um caminho para a integração e o progresso, mas, na realidade, contribui para a exacerbação das disparidades em escala mundial. O geógrafo destaca que grandes projetos de infraestrutura, tais como portos e corredores logísticos, embora conectem nações e mercados, também provocam a reorganização dos espaços locais, exercem pressão sobre comunidades e intensificam a concentração de riquezas.

 

O conceito de “meio técnico-científico-informacional”, igualmente difundido pelo autor, aborda a maneira pela qual a tecnologia, a ciência e a infraestrutura passaram a determinar a configuração do território. Na prática, isso se manifesta na coexistência de regiões com alta conectividade, redes digitais de ponta e logística eficaz, ao lado de áreas que carecem de serviços essenciais. Essa dicotomia reflete a preparação de certos espaços para as demandas do mercado global, enquanto outros são marginalizados nesse processo.

 

Caminhos para a Transformação

 

Ainda que seus diagnósticos fossem críticos, Milton Santos também indicou rotas para a transformação social. Ele postulava que as mesmas redes e tecnologias que contribuem para o aumento das desigualdades poderiam ser utilizadas por comunidades locais para desenvolver soluções econômicas e sociais alternativas.

 

Conforme a visão do autor, iniciativas de base comunitária, a aplicação de tecnologia em áreas periféricas e as estruturas de organização cooperativa demonstram que o território possui o potencial de se tornar um local de resistência e de reinvenção.

 

 

“Ele propõe uma leitura sobre o território brasileiro, trazendo ferramentas para que a gente pense concretamente nas desigualdades, que não fique apenas no plano teórico, mas que nos induza a ir a campo, a conversar com essas pessoas, a entender o cotidiano delas no espaço”

explica a geógrafa Livia Cangiano.

 

Ela complementa que o geógrafo oferece uma perspectiva abrangente para a análise do espaço, ao sugerir que a periferia urbana brasileira, em sua totalidade, detém a capacidade de gerar novas racionalidades de existência.

 

Celebrações do Centenário

 

Para marcar o centenário de nascimento de Milton Santos, uma série de eventos está programada para ocorrer em diferentes regiões do país. As atividades serão realizadas em formato híbrido, unindo pesquisadores, ativistas e o público em geral para discutir o legado do geógrafo e a relevância contemporânea de sua obra.

 

Entre as iniciativas, destaca-se o Seminário Internacional Milton Santos 100 anos: um geógrafo do Século 21, agendado para o período de 4 a 8 de maio, na USP. Este evento contará com transmissão virtual e é uma colaboração com o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB).

 

No Rio de Janeiro, o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi) do Sesc organizará, durante todo o mês de maio, um ciclo de palestras dedicado ao geógrafo.

 

Por sua vez, a Universidade Federal do Tocantins promoverá, entre 26 e 29 de agosto, o evento Tocantins como Fronteira do Meio Técnico-Científico-Informacional. Este encontro tem como objetivo aprofundar o debate internacional sobre o pensamento e a vasta obra de Milton Santos.

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